Abílio José Venade – 1921 – 2005. Começou por aprender com Mestres da altura, como o fabuloso "Zé cortiço" ou os da família Trindade, na arte de estucador de que tinha cédula profissional.
Depois evoluiu para Mestre Caiador e Estucador, Mestre de Obras e Construtor Civil.

Por esses tempos obras de raiz eram quase inexistentes e então consideravam-se obras o levantamento total da telha a que se chamava de "telha" comum, de um só canudo, sendo a coberta igual e que eram de novo assentes em seco ou com argamassa de areia e cal branca, assim como os cumes e telhas dos beirados.
As chaminés (quando não eram gateiras) retocadas e caiadas de branco com os cantos bordaduras e soco em azul galo, terra preta ou cor de telha, assim como as iniciais do dono da casa e o ano de construção. Estas cores eram feitas na obra, com cal branca, e os corantes comprados na loja do senhor Martins na actual rua 25 de Abril em V.N. de Cerveira, onde agora se encontra o edifício sede da junta de Cerveira.
Finalmente os telhados eram salpicados com cal branca para evitar o musgo.
As paredes eram também retocadas, escovadas e caiadas por várias demãos de cal branca ou ocre sendo esta última aplicada raras vezes e só em moradias de classe alta ou edifícios públicos. A cal era aplicada a pincel em demãos verticais e horizontais para se evitar as "pinceladas" feitas pela sobreposição das camadas.
Os cunhais da casa, e as bordaduras á volta de portas e janelas, assim como os socos, eram caiados á semelhança da chaminé. As telhas dos beirados pela face inferior e nos topos, eram caiados em cor composta na obra com pigmentos vermelhos e amarelos o que resultava numa cor de telha mais viva, isto nas telhas dos caleiros, já que as cobertas eram caiadas de branco em listas de 3 a 4 cm o que dava á casa garridice e alegria. As caixilharias eram pintadas de branco, de verde escuro ou republica, de encarnado ou azul galo e por vezes os aros de cor diferente. Também estas cores se faziam na obra pelo Mestre, utilizando Alvaiádo, gesso-cré, óleo de linhaça, água – rás, secante em pó e liquido, o pigmento e por vezes um pouco de água para cortar o brilho. Os betumes ou massa de barrar eram igualmente feitos na obra com produtos similares.

As casas típicas, do Lavrador, pelo interior eram na sua grande maioria, escuras e havia poucas. As janelas eram estreitas, as divisões á excepção da sala e cozinha, eram pequeníssimas e muitas ou tinham clarabóias para os quartos ou então eram escuras. Casa de banho não existia. Raramente caiava-mos todas as divisões da casa. Na sua grande maioria pintava-mos o tecto da sala, quase sempre, bonitas maceiras, em verde salsa, creme, rosa e azul galo e os florões em dourado. As paredes sempre em branco e por vezes caiava-mos um soco em azul galo. A cozinha também levava uma caiadela rápida. Este tipo de obras era quase sempre coincidente com a Páscoa.


No final da década de 1950 começam as primeiras emigrações para o Canadá. Depois a França e a Alemanha, mais de meio da década de 1960 para o fim. Surge também a guerra colonial e o País começa a esvaziar-se da sua juventude e também de muitos lavradores de meia idade. Uns vão para a tropa, outros fogem a "salto" para os países de emigração, também eles carentes de mão-de-obra, fruto da 2ª guerra Mundial.

Começam então a construir-se as primeiras moradias, fruto de sangue suor e muitas lágrimas dos nossos lavradores que ás escuras tiveram coragem de fugir da miséria, da ditadura e da guerra para países desconhecidos, ficando endividados até as orelhas, para pagar o "salto ou passagem" ao passador.

Eram casas pequenas e simples, de divisões ainda reduzidas, mas um verdadeiro luxo para o tempo, já providas de casa de banho e fogão de lenha, acabando com a retrete quase sempre no exterior da casa e com a lareira e a negra cozinha.
Mas é também por aqui que começa o fim do Estucador/Caiador e Mestre de Obras e começa a nascer o Construtor Civil, que na minha perspectiva é um termo aberrante para identificar um profissional de tanto esforço, empenho e sabedoria.

Na década de 1970 e 1980 deu-se a grande explosão na Construção Civil e o país começa a sentir o efeito da emigração. Começa também a legislação a ser mais apertada, por parte das Câmaras Municipais, vão surgindo pessoas que vão fazendo os projectos, muito de forma amadora, até que vão surgindo os Gabinetes de Arquitectura. Muito se falou das casas dos emigrantes e da sua estética e inserção no meio rural. O certo é que foram aprovadas pelos técnicos das respectivas Câmaras!

E que dizer agora das moradias que se vão construindo aldeias dentro, sem telhados, enormes, vãos envidraçados e às quais já chamam de "Centro de Saúde"?

E assim com a emigração e a guerra colonial o quadro de pessoal muda quase todas as semanas e sem qualquer aviso. A escolaridade terminava pela 4ª classe, depois a 6ªclasse e as saídas profissionais eram a lavoura, a migração para Lisboa ou Porto para o Comércio ou Restauração e a construção Civil. Esta última era muito procurada porque os formava para o trabalho que os esperava quando emigrassem – A Construção Civil.

Assim Abílio José Venade formou algumas dezenas de homens para a vida. Alguns continuam pelo Mundo fora em vários continentes. Por lá, são Empresários do mesmo sector, ou até por aqui. Outros mudaram de actividade, ou estão reformados e é sempre uma alegria, quando nos reencontramos e revivemos trechos da nossa vida. Por várias vezes sou abordado por indivíduos que me dizem: Eu também trabalhei com o seu Pai!
Em 19 de Julho de 1967 iniciei a minha vida no mundo do trabalho, ao lado do meu Pai, Tio e outros colaboradores.
Foram assim goradas, as expectativas por parte do Padre António, junto do meu Pai, no sentido de eu ir estudar. O meu Pai colocou em mim a decisão e para mim foi fácil. Gostava dos estudos, mas gostava mais da actividade do meu Pai. Se o arrependimento matasse!
Já não me cruzei com dois irmãos mais velhos, já tinham dado o "salto" para a França, mas ainda tive a sorte de ser Caiador, Estucador, mas já não Mestre de Obras como meu Pai, designação que eu acho bonita, correcta e adequada. Muito cedo fui colhendo responsabilidades, formava com outros colaboradores, uma equipa de trabalho autónoma que ia executando pequenos contratos.

Com a ida prematura para a reforma, por parte do meu Pai, tive que me habituar á ideia de ser eu a pegar na firma e dar vida á 2ª geração. Estava ainda a cumprir o serviço militar obrigatório, quando o meu Pai me avisou da sua intenção. Assim fui-me acostumando á nova realidade que dentro em pouco teria que assumir. Os trabalhos que surgiam já começaram a ser da minha inteira responsabilidade, ao mesmo tempo que íamos terminando aqueles que ainda pertenciam ao meu Pai. Pouco depois escolhi um colaborador para meu sócio, situação que durou bastantes anos. Prossegui como Empresário em nome Individual até 2001 e daí até agora como José Venade - Construções Unipessoal Lda.

 
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